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| Vinho Português Deve Apostar nos Mercados Americano e Inglês em 2003-04-28, por Rita Siza - Público. Equipa de Michael Porter apresenta conclusões do estudo encomendado pela ViniPortugal no próximo dia 28 de Maio Os mercados dos Estados Unidos da América e do Reino Unido deverão assumir-se como os dois principais mercados de exportação para os vinhos portugueses. Esse é, pelo menos, o caminho apontado pelo economista Michael Porter, conhecido pelo trabalho sobre "clusters", e cuja empresa, a "Monitor Company", está a estudar a viticultura portuguesa de forma a delinear um plano de acção a dez anos para a ViniPortugal. A estratégia, segundo Porter, consiste em apostar em dois mercados fortes, em expansão e com grande valor acrescentado pela "educação" dos seus consumidores em relação ao vinho. Mas, ainda segundo o americano, o vinho português terá de ultrapassar um grande calcanhar de Aquiles, que tem a ver com a própria tradição da viticultura portuguesa. "É preciso adaptar os vinhos ao gosto do consumidor internacional", avisa Porter. O que parece quase uma heresia para os portugueses apreciadores da singularidade do vinho nacional é, para os americanos da "Monitor", uma decisão vital para a colocação do produto no mercado internacional. Michael Porter não vê qualquer mais-valia para o sector na manutenção da actual tendência de exportação para o chamado mercado étnico ou da saudade. "No mercado étnico, o vinho vende-se pelo preço e as empresas guerreiam-se de forma insustentável. Mas num mercado vasto, o vinho português vende-se pelo preço comparado com os outros: os americanos, os chilenos, os argentinos, australianos ou sul-africanos...", concorda um dos participantes no estudo, ouvido pelo PÚBLICO. Arrepiar caminho Para ultrapassar o mercado da saudade e chegar a novos consumidores, disponíveis para pagar por um bom vinho, os enólogos portugueses terão de arrepiar algum caminho. "Temos de melhorar em tecnologia e aproximar o nosso produto ao consumidor", refere uma outra fonte contactada pelo PÚBLICO. "Muitas vezes, na concepção de um vinho, esquece-se que no mercado externo, esse produto não vai ser consumido a acompanhar comida portuguesa", acrescenta. Outra das sugestões da equipa de Michael Porter tem a ver com a aposta da diferenciação de algumas castas portuguesas. "Eles estão a seguir a estratégia que fez a Austrália e que eles próprios implementaram na Califórnia", nota a mesma fonte. No caso português, as castas de "eleição" que deverão ser promovidas pelas suas características únicas deverão ser, no caso dos vinhos brancos, a Fernão Pires e Arinto, e nos tintos a Touriga Nacional e Tinta Roriz. O que não quer dizer que muitas outras castas não possam ser de eleição. Simplesmente, a concepção dos americanos - no que concordam algumas empresas - é que a promoção não se deve dispersar nas várias possibilidades que os vinhos oferecem. "Interessa é que os vinhos portugueses tenham visibilidade. A minha diferença depois mostro-a eu", referiu um produtor. Estas indicações relativamente à própria essência dos vinhos poderão ser polémicas para alguns dos participantes nas reuniões de trabalho promovidas pelo "Monitor". Os americanos dividiram o seu campo de trabalho em grandes áreas (Estratégia e Marketing, Viticultura, Inovação e Desenvolvimento e Administração do Cluster), que são, por sua vez, seguidas por uma espécie de um comité de supervisão. Dentro de cada área, têm sido realizadas reuniões de trabalho onde os especialistas da "Monitor" ouvem vários convidados - seleccionados em nome individual pela sua contribuição profissional para a fileira - e apresentam o seu esquema estratégico, "fundamentado em termos económicos e não propriamente num 'feeling' de mercado", como notou um dos intervenientes. Trabalho de casa da Monitor No que diz respeito ao "trabalho de casa" realizado pela "Monitor", os resultados não serão bonitos. "As conclusões são uma desgraça", confidenciou ao PÚBLICO um dos participantes nos grupos de trabalho. O sector não vai ficar bem na fotografia e quase não há ninguém que consiga escapar para "embelezar" o retrato: desde as debilidades a nível produtivo pelo mau estado das vinhas, às dificuldades de organização dos produtores no sistema cooperativo, às questões burocráticas da legislação e relacionamento com a tutela governamental, à falta de ambição dos produtores e às estratégias de baixos preços com que muitas empresas procuram garantir mercado... tudo são aspectos que os americanos consideram "muito negativos" e que impedem o "cluster" do vinho de se impor com pujança na economia nacional. Se não fosse o facto de grande parte das conclusões estarem baseadas em informação "palpável" - os responsáveis da "Monitor" procederam a uma exaustiva compilação de dados dispersos por várias entidades públicas e privadas, tendo ainda realizado os seus próprios estudos que produziram ainda mais informação -, esta caracterização do sector nada teria de particularmente "novo" ao nível do diagnóstico. "São coisas que têm vindo a ser mais ou menos ditas por intervenientes que agora estão nos grupos de trabalho", observa um dos participantes. Algumas pistas que Michael Porter vai deixar - a data para a apresentação das conclusões definitivas do trabalho foi já marcada para o próximo dia 28 de Maio - poderão não ser de utilidade imediata. Segundo o PÚBLICO apurou, os autores do estudo poderão fazer várias propostas de alteração do edifício institucional do sector, que correspondem a reformas da exclusiva competência do poder político, nomeadamente na questão da definição das várias regiões demarcadas, nas questões da burocracia nos direitos de plantação, na rotulagem ou na fiscalização e ainda o sempre polémico problema da destilação. "Para os americanos, é inconcebível que sejam feitos vinhos para destilação. A perspectiva deles é que sempre que se faz um vinho é para vender", nota outro participante nos encontros. |